Por Roberta Braga

Aos 44 anos, Alexandre Nero acumula experiência artística nas mais diversas áreas. Muito além do papel de protagonista da novela das nove, que o fez ficar conhecido pelo grande público, sua história nas artes começou há 25 anos, quando, após perder o pai e a mãe ainda na adolescência, precisou amadurecer e encarar a vida de frente.

Nero nasceu em Curitiba, passou a infância em Minas Gerais e São Paulo, e depois voltou para a capital paranaense para morar com um tio. Precisando trabalhar, começou a tocar em bares. Aos poucos, foi conquistando seu espaço e crescendo como artista. Da música para o teatro foi um caminho natural, onde ele transita até os dias de hoje. Nero pode se orgulhar da sua contribuição para a cultura, seja como músico, instrumentista, compositor ou ator. Lançou nove CDs e um DVD, criou as bandas Maquinaíma e Denorex80, produziu trilhas sonoras para musicais, participou de dezenas de peças de teatro, seis novelas, além de programas de televisão e participações no cinema. Em entrevista exclusiva à ler&Cia Alexandre Nero contou um pouco de sua trajetória:

LER&CIA | Você nasceu e morou em Curitiba por muitos anos. O que levou da cidade para sua vida e carreira?

Alexandre Nero | Eu levei e levo Curitiba até hoje porque todas as minhas referências artísticas são da cidade. Eu passei minha adolescência em São Paulo, mas ali eu não tinha me descoberto artista, músico, nada. Foi em Curitiba que eu me tornei músico, me tornei ator, foi ali que eu conheci minhas grandes referências artísticas que são o Leminski, Dalton Trevisan, Grupo Fato [conjunto curitibano do qual Nero fez parte por 10 anos], Beijo AA Força [banda curitibana de punk rock], os diretores de teatro; enfim, toda a minha referência artística é da cidade. Tudo que eu sei ou não sei, tudo que eu entendo de arte é de Curitiba. Eu carrego até hoje e provavelmente carregarei para sempre.

LER&CIA | A música foi a porta de entrada para a sua vida artística. Como você descobriu esse interesse?

Alexandre Nero | O interesse de ser músico ou pela música todo mundo tem, de uma certa forma, e ser músico era sonho de criança. Isso só se tornou realidade por sobrevivência mesmo, porque a vida me pegou de surpresa, me passou uma rasteira, e eu tive que sobreviver de alguma forma. Eu estava sem emprego e a única coisa que eu sabia fazer era tocar violão, e eu tocava muito mal na época. Enfim, me tornei músico profissional por sobrevivência.

LER&CIA | Depois foi a vez do teatro, cinema e televisão. Hoje, você sente necessidade de estar sempre em contato com as diversas formas de arte?

Alexandre Nero | O teatro já é diferente da música, que começou pela questão da sobrevivência e depois fui entendendo melhor o que aquilo significava. Até então eu não me considerava um artista, eu era realmente um sobrevivente. Depois eu fui conhecendo pessoas interessantes que me abriram a cabeça para o lado artístico. Eu já estava mais adiantado na música e o teatro foi um dos lugares que eu entrei por escolha, para saber melhor sobre a minha música, sobre como me portar em cima do palco. Foi também por curiosidade, eu sou um cara muito curioso com as outras artes e comas outras coisas. E então acabei me tornando ator. Mas não me considero só uma coisa ou outra, profissionalmente eu sou músico, sou ator, mas eu acho que precisarei sempre de outras artes para me manifestar. Isso pode ser pela escrita, como um poeta, escritor, ou pelo cinema. Qualquer que seja a arte, acho que não há limite, a gente só tem que querer fazer.

LER&CIA | E é possível conciliar a vida de músico e ator?

Alexandre Nero | É possível desde que as carreiras estejam temporariamente uma menos que a outra. Você tem que estar dedicado mais a uma. As duas coisas juntas não dá para fazer porque ou você está com um espetáculo de teatro e não consegue fazer shows, ou você está em uma temporada de shows e não dá para fazer teatro junto. Ou então, se você está com uma novela, não é possível fazer shows ou teatro ao mesmo tempo. É muito complicado. É preciso estar sempre focado em uma coisa, mas há várias circulando na minha cabeça o tempo todo.

Leia Também:  A Harpia do Passeio Público

LER&CIA | Quais foram suas maiores influências musicais e de interpretação? E quais artistas você admira?

Alexandre Nero | É muita coisa, não tem como dizer, limitar isso em nomes é impossível. Vai desde Sidney Magal até John Cage, ou seja, é um universo infinito.

LER&CIA | Hoje, como protagonista da novela das nove, você está no auge da sua carreira na televisão e, consequentemente, é muito conhecido pelo público. Como você lida com a fama e com o fato de ser visto como galã?

Alexandre Nero | Eu acho que essas duas coisas estão conectadas. O fato de estar galã… é muito mais estar, o verbo é esse, é “estar galã”. O personagem mexe com as pessoas de alguma forma, então considero que é estar famoso, porque ninguém é famoso, as pessoas estão famosas, é uma coisa passageira. Mas eu considero que tenho sucesso com a carreira, o que é mais importante do que ter fama. Então, essa coisa do galã e da fama tem mais a ver com o estar. Esse é o momento: eu estou na moda, mas já passa.

LER&CIA | Você é sempre genuíno em suas entrevistas e em suas posições, falando com sinceridade e sem pudor sobre diversos temas. O sucesso afeta isso de alguma forma?

Alexandre Nero | Na verdade eu não falo o que eu quero, se eu falasse o que eu quisesse eu estaria preso ou morto, provavelmente. A gente não fala o que quer o tempo todo, né? Essa coisa de ser verdadeiro 24 horas por dia ninguém é. Todo mundo tem uma máscara, uma certa hipocrisia para conseguir viver na sociedade, isso é real. Só que se você falar, eventualmente, coisas que não gostam ou não querem ouvir, isso mexe com algumas pessoas. Acho que a única maneira de não incomodar ninguém é não falar nada, mas também você não vai fazer nada. Então eu sou o cara que gosta de falar ou fazer alguma coisa.

LER&CIA | Você lançou em 2013 o seu DVD Revendo amor – com pouco uso, quase na caixa, que mostra o amor de uma forma diferente. Como o público recebeu essa proposta?

Alexandre Nero | Ah, o grande público não tem acesso a isso, né? Por ser uma produção independente, um DVD e um filme de baixo orçamento, o público mesmo não recebe. Mas, claro, as pessoas que recebem adoram, amam e eu tenho o maior orgulho dele. Agora, dizer que o público conheceu, isso eu não posso afirmar porque ainda estão conhecendo. E eu acho que o grande mérito desse trabalho é ser atemporal, ele não vai acabar no ano que vem, ele vai poder durar muito tempo. As pessoas vão poder comprar, eu quero crer nisso e tenho essa pretensão, daqui a três ou quatro anos e ele ainda será atual.

LER&CIA | No DVD você traz também poesias de sua autoria e de outros artistas, como Paulo Leminski. Além de poesias, você escreve ou tem interesse por outros gêneros?

Alexandre Nero | Interesse eu tenho, eu gostaria muito de escrever outros gêneros, mas eu não me acho competente, ainda. Pode ser que um dia eu me ache, mas por enquanto não. Eu demorei 15 anos para me considerar ator, 10 anos para me considerar músico e 20 anos para me considerar poeta. Eu acho que as coisas não são da noite para o dia, ninguém vira médico da noite para o dia, assim como ninguém vira poeta da noite para o dia. As coisas são lentas. Mas eu acho que um dia pode ser que eu venha a fazer outros gêneros. Mas para eu assumir isso vai demorar, eu vou ter que trabalhar muito e eu vou ter que ter orgulho. Acho que o mais importante é ter orgulho do que você está fazendo. A partir do momento em que você não tem mais vergonha, você pode se considerar um profissional da área.