Micaela Góes se formou em Artes cênicas e atuou em novelas e no cinema, mas seu talento nato para organização fez com que descobrisse uma nova profissão: a de organizadora profissional. A descoberta surgiu por acaso, quando uma amiga pediu que a ajudasse a organizar o funcionamento de sua casa. Desse dia em diante, foi uma indicação atrás da outra e ela se redescobriu na nova ocupação. não demorou para que seu talento chegasse ao grande público por meio do programa Santa Ajuda, que estreou em 2011 no canal GNT.

No programa, Micaela tem a missão de ajudar pessoas bagunceiras a colocarem ordem na vida e na casa. Suas dicas valiosas podem ser aproveitadas por todos. Agora, as suas ideias e reflexões sobre organização podem ser encontradas também na obra Santa Ajuda (Editora Globo), lançada recentemente. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Micaela fala mais sobre o que é ser organizada, a importância desse hábito para nossa qualidade de vida e conta como ela passa esses valores para as filhas, as gêmeas Lara e Júlia, de sete anos.

LER&CIA | Na sua infância, você já era uma criança organizada?

Micaela Góes | A organização na minha casa sempre foi uma coisa natural. Meus pais são organizados e nos proporcionaram absorver essa rotina de organização de uma forma natural. Não que minha casa fosse militarmente organizada, mas as coisas tinham um certo funcionamento, com horário, rotina, regras e isso fluía normalmente.

Como o seu talento para a organização se transformou em uma profissão?

Eu nunca tinha percebido que isso era uma coisa diferente. Eu só fui notar que a organização era um talento, uma aptidão, quando eu realmente passei a trabalhar com isso. Isso começou quando minha amiga, a atriz Camila Pitanga, me pediu ajuda quando a sua enteada foi morar com ela. Eu falei que nunca tinha feito isso para ninguém, mas topei tentar. E comecei a organizar a casa dela para receber uma criança. Só que aí percebi que precisava mexer em outras coisas; no closet, na rouparia, na dinâmica da cozinha, no pagamento das contas e, quando eu vi, já tinha organizado toda a rotina e estrutura da casa. Foi quando ela me disse que eu deveria oferecer isso para outras pessoas, como um serviço. Até então eu não achava que as pessoas pudessem precisar de alguém que fizesse isso por elas. Mas comecei a fazer esse trabalho e isso foi tomando uma proporção maior e deu certo. As pessoas foram me indicando e eu nunca mais parei de trabalhar, foi uma coisa bem espontânea.

Desde 2011 você apresenta o programa Santa Ajuda, na GNT. O interesse das pessoas por uma vida organizada vem aumentando?

Quando eu comecei a apresentar o Santa Ajuda eu já trabalhava com organização fazia oito anos. Não era uma profissão comum, não tinha curso, não tinha mercado, era muito inicial. Hoje em dia é um mercado em ascensão, em crescimento, e ainda cheio de possibilidades. Quando eu comecei só existia cabide e caixa e hoje temos um universo de produtos de organização.

Acho que o programa teve também uma função social dentro desse mercado que foi a de colocar em evidência uma profissão que está aí, que está se popularizando, aparecendo como uma opção de trabalho para muitas pessoas. Vemos muita gente fazendo mudança de carreira, então é uma opção nova de profissão muito legal.

O que é ser organizada para você?

Eu acho que mais do que organizada, a vida tem que ser prática. Então, ser organizado, para mim, é trazer praticidade nos mínimos detalhes. É você ter uma engrenagem doméstica ajeitada, fluida, lubrificada, funcionando. Você tem um investimento inicial de energia para estruturar o funcionamento da sua vida e da sua casa. Eu, assim como muitas pessoas, toco vários setores simultaneamente. Tenho a minha casa, que é uma espécie de empresa, duas filhas, funcionário, faço a produção de conteúdo do programa, tenho a minha empresa de organização residencial. Então são várias coisas que precisamos tocar ao mesmo tempo e, com a organização, é possível. Com a quantidade de demanda que temos hoje em dia o tempo parece cada vez mais curto. Então, eu vejo a organização como uma ferramenta poderosa para viabilizar o equilíbrio dessas funções. Ser organizada é ser prática, é ter uma engrenagem doméstica e profissional. E quando tem alguma peça que não está funcionando, você lubrifica e a engrenagem volta a funcionar. Acho que a vida tem que ser fluida, não pode ser emperrada.

Você citou que o tempo pode ser um empecilho para sermos organizados. É possível driblar isso?

A falta de tempo é sempre a desculpa clássica. Na verdade,
muitas vezes é uma realidade mesmo. Vivemos com muitas tarefas e o tempo vai ficando mais curto. E a tecnologia nesse sentido ajuda, mas também atrapalha. Não temos mais hora para parar de trabalhar, praticamente estamos disponíveis o tempo todo. Então, o tempo é um fator importante na vida de todo mundo. E a organização é uma das poucas coisas capazes de reverter essa situação, de fazer ser viável darmos conta de uma vida corrida, cheia de demandas.

É possível que pessoas naturalmente desorganizadas consigam mudar essa característica?

Todo mundo é capaz de ter uma vida organizada. Algumas pessoas têm essa característica natural, como eu, mas acho que a organização é uma prática. Você precisa se disponibilizar a adquirir novas rotinas. Quando me perguntam como uma pessoa desorganizada pode se tornar uma pessoa organizada eu digo que é mais ou menos como fazer uma reeducação alimentar. Em primeiro lugar você tem que querer fazer diferente e aí você se abre para aquela transformação. Você vai precisar adquirir novos hábitos, experimentar novas ferramentas, novas práticas, adotar rotinas diferentes. São coisas simples, como criar lugar certo para as coisas; adotar a prática de tirar e devolver; quando tem uma coisa quebrada consertar ou já dar destino para aquilo; quando pegar algo emprestado, devolver; quando começar, terminar, e por aí vai. É uma prática que você vai interiorizando e absorvendo no seu dia a dia para que aquilo funcione até se transformar em algo natural. E aí é exatamente como em uma reeducação alimentar; quando você começa a experimentar os benefícios, você não quer mais voltar. Eu vejo isso com meus clientes e com os participantes do programa. Quando a pessoa percebe o benefício, a facilidade, o conforto de encontrar suas coisas, de perder menos tempo, de desperdiçar menos, ela não volta mais. Então mesmo a pessoa que não tem isso impresso em seu cotidiano pode adquirir novos hábitos.

E como você pratica isso com suas filhas?

Na minha casa eu tive sorte porque os meus pais fizeram isso pela gente sem que percebêssemos. Sempre tivemos rotina e regras. E, por isso mesmo, faço igual com minhas filhas. Na vida adquirimos rotinas alimentares, de higiene pessoal, mas não de organização. Com as minhas filhas eu estou construindo isso e vejo que funciona. Elas chegam da escola e cada uma tem um gancho para pendurar a mochila, que fica sempre no mesmo lugar. Aí elas tiram a pasta Aí elas tiram a pasta, fazem a tarefa e devolvem a pasta para a mochila. Não acontece de esquecer, e isso facilita a vida delas. É um treinamento diário, não dá para ter preguiça e desistir. Mas funciona. Elas vão absorvendo e gostam, porque isso também facilita a vida delas.

Quais seriam os primeiros passos para quem quer começar a organizar a vida?

Quer começar a se organizar? Não se coloque uma meta gigantesca: “hoje eu vou arrumar a casa toda”. É preciso colocar metas possíveis de serem alcançadas. Exemplo: “vou começar a organizar o meu armário”. Então, você organiza uma porta e duas gavetas; coloca uma meta do que vai fazer. Se você colocar um objetivo muito grande, você vai começar, mas não vai terminar. Aí, a pessoa fica frustrada, acha que realmente não consegue ser organizada e que não tem talento para isso. Mas se você decide “vou arrumar só essas duas gavetas”, toma um fôlego e vai.

Para você, ter a casa e as coisas organizadas pode contribuir em quais outros aspectos da vida?

Eu vejo a organização como qualidade de vida, ela afeta muito o nosso dia a dia. Quando você organiza uma casa, altera positivamente o ritmo e a fluidez das coisas. Quando temos tudo funcionando, não perdemos tempo de manhã procurando a bolsa, a chave ou a carteira, por exemplo. Então, você ganha esse tempo para outra coisa, como tomar seu café com mais calma. Se você deixa sua roupa de trabalho separada no dia anterior, de manhã você pode tomar um banho mais longo. Se você tem um planejamento do consumo, você sabe quanto de material de limpeza você precisa; assim não desperdiça. Então, isso afeta também a otimização dos recursos.

As pessoas hoje tendem a juntar muitas coisas de que não precisam e a comprar muito. Quais são as consequências desse acúmulo de bens materiais?

Isso é uma armadilha e tanto. Eu tive uma experiência recente que foi muito transformadora. Eu me mudei para um apartamento maior e, claro, fiz um planejamento enorme de mudança. Eu estava há doze anos no mesmo apartamento e, apesar de eu rotineiramente eliminar as coisas, fui acumulando. Quando fui me mudar fiz esse caminho contrário, quis reduzir. Mas aí eu vi as caixas da mudança, parei e pensei: para que eu preciso disso tudo? De onde veio tanta coisa? E resolvi fazer mais uma limpa. Percebi que preciso de menos, que quero espaços vazios. Tirei mais umas 20 ou 30 caixas, foi praticamente uma outra mudança. E a partir dali eu comecei a reduzir mesmo. Posso te afirmar que pratico o que eu prego. Passei a perceber que não precisamos do tanto de coisa que temos. Estamos sempre caindo nas armadilhas do capitalismo. Então tenho reduzido sempre, e quero ter cada vez menos.

E como você passa esses valores, de organização e de consumo para suas filhas?

Eu coloco muitos limites. Não tem essa de saiu já vai comprando qualquer coisa. Elas ganham presentes nas datas pontuais – aniversário, Dia das Crianças, Natal, Fada do Dente. Isso não acontece a qualquer momento, a qualquer hora. Não tem isso também do “eu quero”, tento sempre analisar junto com elas se precisam mesmo. Um exemplo recente foi que fomos gravar um episódio do Santa Ajuda na Disney, onde tudo é um convite permanente ao consumo. Fomos com a ideia de aproveitar, passear, mas sem precisar comprar tudo. Cada uma escolheu já aqui no Brasil qual boneco queria. E a gente sempre fazia essa reflexão: esse dinossauro faz sentido aqui agora na saída do brinquedo, mas será que ele vai combinar no seu quarto? Então fomos praticando isso ao longo da viagem. Não vou dizer que foi zero consumo, mas foi uma prática. E foi muito divertido, muito legal. Isso vai ajudando a moldar os valores. Quando a criança tem demais, desmedidamente, não dá valor. Se ela tem o quarto repleto de brinquedos ela não dá conta de brincar com tudo.

O que os leitores podem encontrar no seu livro Santa Ajuda?

É um livro de consulta. Você pode entrar nele em qualquer capítulo, de acordo com sua necessidade. É um livro despretensioso, com dicas simples para os cômodos da casa, com minha reflexão sobre organização e com soluções clássicas. Ele é dividido por cores, então é fácil identificar o que você procura. O livro traz muitas dicas para quem quer fazer o caminho para se tornar organizado, porque é possível, qualquer pessoa pode!

 

Confira agora o livro “Santa Ajuda”: