“To be, or not to be: that is the question”. Mesmo em inglês, você provavelmente reconheceu a famosa pergunta de Hamlet. Mas e se, além do “ser ou não ser”, você encarasse todo o clássico de Shakespeare original, na língua inglesa, aproveitando para treinar o idioma?

Segundo o professor de Literaturas de Língua Inglesa da Universidade Federal de Pelotas (RS), Eduardo Marks de Marques, a leitura de livros em inglês traz um desafio diferente para o aprendizado do idioma, já que foi escrito para nativos da língua e não aprendizes. “Ler o livro no idioma original permite o acesso ao texto, sem mediação, como foi concebido pelo autor. Traz muitos desafios linguísticos, mas permite uma experiência de imersão no universo do escritor”, comenta.

Mergulhar no mundo da obra, tal como foi criado, permite que o leitor conheça diversas utilizações de palavras e expressões, em diferentes contextos, inclusive alguns que não são ensinados em sala de aula. “A maior vantagem da leitura de um livro em seu idioma original creio que é a possibilidade de se familiarizar com a língua, com seus torneios, com sua sonoridade e ritmos próprios. Além disso, cada língua é, dizendo como Herta Müller [escritora e ganhadora do Nobel de Literatura 2009], ‘uma maneira de ver o mundo’. Então nada substitui essa experiência de ‘ver o outro’ lendo a língua do outro”, observa Denise Bottmann, historiadora e tradutora de diversos livros, entre eles, Eu sou Malala e a biografia Steve Jobs, ambos da Companhia das Letras.

Para quem deseja encarar o desafio de ler livros em inglês, o mercado tem se mostrado bastante favorável, com a oferta crescente de obras importadas. No Grupo Livrarias Curitiba, por exemplo, são centenas de títulos de diversos autores, como Harlan Coben, E. L. James e J.K. Rowling.

Para o professor Marques, a escolha dos autores deve sim passar pelo gosto individual. “Com os meus alunos, indico os contos de Hemingway, pois ele usa uma linguagem enxuta, com poucos adjetivos. Seus contos são curtos, mas poderosos na mensagem e permitem um acesso relativamente fácil ao leitor aprendiz à literatura de língua inglesa”, observa.

A tradutora Denise Bottmann, por sua vez, conta que gostava de ler as obras de Agatha Christie, pois traziam tramas envolventes em linguagem simples. “Imagino que, para o leitor da faixa infantojuvenil de hoje, um Harry Potter ou algo na linha chick-lit, possa ser divertido e estimulante”, sugere.

Para um contato com o vocabulário usual do cotidiano, a literatura contemporânea é a indicação de Marques. “Haverá o desafio linguístico, mas a leitura traz uma experiência profunda de imersão no idioma”, comenta.

The way it was meant to be

Independentemente do estilo ou gênero literário, uma coisa é certa: nenhuma tradução é 100% fiel ao original, palavra por palavra. “O desafio do tradutor é manter a integridade da obra original. Não apenas a transposição da língua, mas também buscando manter o estilo do autor. Mas sempre algo se perde, pois muitas vezes o idioma original e o de tradução têm estruturas linguísticas diferentes”, comenta Marques.

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Denise explica que muitos termos não são traduzidos ao pé da letra, pela sua falta de sentido como expressão no segundo idioma. “Se de um lado talvez se percam algumas coisas, necessariamente haverá outras coisas ocupando o lugar dessas perdas, que então podem ser consideradas ‘ganhos’. Assim, por exemplo, um ‘let’s paint the town red’ é uma expressão tão bonita, mas seu referente já se perdeu faz tanto tempo que se tornou um idiomatismo, uma expressão feita. Assim, ninguém vai traduzir por ‘vamos pintar a cidade de vermelho’, claro, mas poderá dizer ‘vamos dar um rolê por aí’, ‘vamos cair na farra’ ou algo assim. Então, o que se perde de expressividade de um lado se ganha em outro. Isso em termos linguísticos. ”

Assim, ao ler a obra original o leitor irá conhecer expressões que são tão enraizadas na cultura inglesa que sua tradução é impossível para o português, mas que são usadas no cotidiano nos países que falam o idioma. Como Marques salienta: “É um mergulho no universo do autor, sem filtro nem intermediação”.

Lost in translation

Com a leitura de livros no idioma original, uma coisa faltará: as notas de rodapé – queridas pela maioria. Muitas vezes, para contextualizar o leitor sobre uma expressão, um trocadilho realizado com o idioma ou uma afirmação que precisa de entendimento sobre a cultura para fazer sentido, os tradutores utilizam notas. “Não há uma padronização. Há editoras que permitem a intervenção do tradutor por meios das explicações de rodapé e há outras que proíbem. Depende da proposta de cada obra específica”, explica Eduardo Marks de Marques.

A ausência dessas notas no livro original vai trazer um desafio extra ao leitor, que precisará buscar referências para entender não apenas o idioma, mas também o contexto da obra. Para Denise, isso é algo benéfico inclusive nas traduções sem nota de rodapé, pois dá ao leitor o protagonismo na compreensão da obra. “Veja um exemplo: se Virginia Woolf diz, a certa altura de Mrs. Dalloway, que o marido de Mrs. Dalloway não considera respeitável o homem que se casa com a irmã de sua falecida esposa, serão poucos os leitores, mesmo ingleses, e praticamente nenhum leitor brasileiro, que entenderão que Mr. Dalloway está se referindo a uma lei muito específica, que acabava de ser revogada no Parlamento. Para essas referências culturais de época, o leitor, se quiser entender melhor a densidade, a textura da narrativa, terá de se informar alhures”, comenta a tradutora.