Em 2016, a literatura perdeu o escritor, professor, filósofo, semiólogo, linguista, crítico literário, romancista e bibliófilo italiano Umberto Eco. Foram 50 anos dedicados ao ofício da escrita, com a produção de 20 livros de ensaios e sete romances, eco passeou entre temas como a semiótica, a linguística, a estética, a história da literatura e a cultura de massas, mas também se fez presente na descrição de acontecimentos que envolvem o leitor, como assassinatos e mistérios.

INTELECTUAL DA MEMÓRIA

Assim Umberto Eco é definido pelo doutor em Letras Paulo Fernando Zaganin Rosa, que ressalta seu conhecimento enciclopédico impressionante. “Umberto Eco nos demonstrou por meio de sua vasta e profícua trajetória literária que as memórias são múltiplas e formadoras da história pessoal, que por sua vez está sempre amarrada a uma história social. Seu legado literário transcende a própria literatura e comprova que a vida não se separa da ficção e que a história, por sua vez, vista por um perito em semiótica, pode ser contada de várias formas.”

ESTREIA TARDIA NA LITERATURA

Apesar de já experiente escritor de ensaios, sua estreia na literatura aconteceu em 1980, aos 48 anos, com O nome da Rosa, que veio a ser sua obra de maior sucesso. “O livro impôs uma reflexão interessante: pode um best-seller ser um livro de qualidade? No caso de O nome da Rosa isso aconteceu de modo rápido, com um romance de estreia, de tamanho considerável (são em torno de 400 páginas), que tem como ambientação uma abadia da Idade Média”, observa o doutor em Teoria Literária Antonio Barros de Brito Junior.

CULTURA DE MASSA

Esses e outros elementos fizeram com que a crítica se interrogasse sobre o papel da literatura num contexto de esgotamento das vanguardas e de ampliação dos mass media e do mercado editorial. “Com isso, houve uma aproximação maior (por vezes enganosa) entre a famigerada ‘cultura de massa’ e a suposta ‘cultura erudita’”, observa Antonio Barros.

SUA (NÃO) UNANIMIDADE COM A CRÍTICA

Antonio Barros explica que o trabalho do escritor não é unanimidade com a crítica. “Uma parte o considera formidável, de bom domínio da escrita e das formas romanescas, com boas ideias e uma grande capacidade fabulística, inclusive para transformar o banal em argumento literário. Outros, porém, consideram que, por essas razões, os romances não passam de pastiches de formas gastas, em especial o thriller de ação e o romance policial, onde apenas sua erudição se sobressai.”
 
TEORIA E ROMANCES

Eco levou os temas tratados na sua vasta obra teórica, como a própria teoria da ficção e da interpretação literária, aos seus romances. “Isso garantiu ao escritor um lugar especial na literatura. Nenhum outro escritor, que eu saiba, foi tão bem sucedido nesse aspecto. Aliás, inclusive por isso, Eco destaca-se ainda mais, uma vez que a sua teoria é valiosíssima para o estudo da literatura (e ser teórico é também importante)”, observa Barros.

ROMANCES DIFÍCEIS DE SEREM LIDOS

Para Barros, isso é parte do “charme” dos romances de Umberto Eco. “Por um lado, não são livros difíceis, justamente porque envolvem temas e peripécias que são até certo ponto ‘hollywoodianas’: assassinatos em uma abadia, as Cruzadas, intrigas jornalísticas, um naufrágio, casos de dupla personalidade etc. Por outro lado, tratam-se, sim, de livros difíceis de ler, porque há uma profusão de informações enciclopédicas que afugenta o leitor, pois o faz se sentir ligeiramente ‘estúpido’ e ‘despreparado’.”

ESCRITA EM NÍVEIS

Suas obras trazem sempre dois níveis e são escritas para dois tipos de leitores. “Para o leitor ‘experiente’, que em cada linha encontra uma citação para decifrar, e para o leitor ‘comum’, que se interessa apenas pela trama e pelos ‘grandes efeitos’ narrados em suas obras”, explica Paulo Fernando.

SEMIÓTICA

Entre as teorias que podem ser encontradas pelo leitor mais atento destaca-se a semiótica. “De acordo com Eco, em toda descoberta há algo de semiótico. Assim, quando um detetive chega ao assassino, de certo modo ele está trabalhando com a abdução, que é, como bem demonstrou Charles S. Peirce, um tipo de pensamento lógico que se respalda nos signos”, exemplifica Barros.

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Umberto Eco se mostra neste divertido Diário mínimo como um articulista esplêndido, um contador de anedotas, interlocutor espirituoso e amante da paródia. Com perspicácia e erudição, oferece uma seleção de textos nos quais, por meio da ironia crua e pastiches, ataca o mundo acadêmico, as bizarrices do cotidiano, o labirinto da burocracia e até o design de objetos.

 

Primeiro romance de Umberto Eco, este fascinante livro fez com que o conceituado professor italiano da Universidade de Bolonha alcançasse prestígio internacional como romancista histórico. Marcada pela ironia de Eco, a narrativa é repleta de mistérios, com símbolos secretos e manuscritos codificados, mas também explora profundas questões filosóficas. Em 1986, ‘O Nome da Rosa’ recebeu adaptação homônima para o cinema dirigida por Jean-Jacques Annaud e estrelada por Sean Connery e Christian Slater. Umberto Eco completou 80 anos em 2012 e publicou uma edição revista de ‘O Nome da Rosa’, tornando”o romance que lhe alçou à fama mundial mais acessível aos novos leitores”.