No último ano, quantos livros escritos por mulheres você leu? E durante toda a sua vida? Fazendo a conta por cima, provavelmente você vai perceber que acabou lendo muito mais livros escritos por homens, mesmo que não tenha sido uma escolha consciente.

Uma explicação para essa disparidade foi levantada, em 2014, pela escritora Joanna Walsh. Abordando a questão da desigualdade de gênero dentro da literatura, em sua fala, ela ressaltou que as autoras de ficção e não ficção são menos publicadas, traduzidas, divulgadas, estudadas e discutidas em relação aos autores. Com isso, fica mais difícil que você, leitor final, tenha acesso a obras feitas por escritoras.

Pensando nisso, Joana propôs uma mudança simples: leia mulheres. A intenção era promover um projeto em que, em um ano, 12 autoras fossem escolhidas para serem lidas ao longo dos meses de janeiro a dezembro. Hoje, passados dois anos da iniciativa, o movimento ganhou força e a hashtag #leiamulheres se popularizou, estimulando que mais leitores começassem o projeto independentemente do mês de início.

Para incentivar que você participe também, selecionamos doze livros de autoras brasileiras que merecem um espaço no seu cronograma de leitura. Confira:

1. Antes do Baile Verde – Lygia Fagundes Telles

antes do baile verde (2)

Os dezoito contos reunidos em Antes do Baile Verde examinam com olhar ao mesmo tempo crítico e solidário os mais variados destinos humanos. Em prosa fluente e sedutora, descortinam-se conflitos amorosos, descobertas surpreendentes e a eterna tensão entre o desejo e a consciência moral.

2. Poética – Ana Cristina Cesar

poetica (2)

Ana Cristina Cesar deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se um dos mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das “leis do grupo”. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino ¿ pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época. Entre fragmentos de diário, cartas fictícias, cadernos de viagem, sumários arrojados, textos em prosa e poemas líricos, Ana Cristina fascinava e seduzia seus interlocutores, num permanente jogo de velar e desvelar. Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, dos escritos da carioca, Armando Freitas Filho. Dos volumes independentes do começo da carreira aos livros póstumos, a obra da musa da poesia marginal – reunida pela primeira vez em volume único ¿ ainda se abre, passados trinta anos de sua morte, a leituras sem fim.

3. Sapato de salto – Lygia Bojunga

sapato de salto (2)

‘Sapato de Salto’ traz história que lida com os permanentes conflitos sexuais, amorosos e familiares que dificultam e/ou iluminam a trajetória de adolescentes e adultos.

4. Misere – Adélia Prado

misere (2)

Neste livro, Adélia reúne 38 poemas, em que traduz, pela linguagem poética, lembranças de infância, o desejo de desfrutar o presente e dúvidas quanto ao futuro. ‘Miserere’ aprofunda o sentimento místico e religioso presente na obra da autora. A poetisa mineira traz à sua obra um misto de fé, esperança, busca por piedade, força e sensibilidade.

5. Quinze – Rachel de Queiroz

quinze (2)

O Quinze causou sensação, e ainda hoje desperta interesse, pelo drama que descreve: o embate entre o homem e a natureza, no trágico destino de um povo assolado pela grande seca de 1915 que, diga-se, não foi a última. Rachel de Queiroz, a primeira mulher a se tornar imortal da Academia Brasileira de Letras, retrata em sua obra a história de um amor irrealizado da mocinha que lê romances franceses e sonha com o moço rude entregue à faina solitária de salvar seu gado; e a dramática marcha a pé de um retirante e sua família, sonhando chegar ao Amazonas.  Uma obra que marca presença em qualquer seleção dos maiores títulos literários do Brasil, e chega agora ao mercado com novo projeto gráfico, em edição de luxo e moderna.

6. A menina quebrada – Eliane Brum

menina quebrada (2)

Nas colunas da repórter Eliane Brum no site da revista Época, a vida pode ser tudo, menos rasa. A cada segunda-feira, os leitores encontram um olhar surpreendente sobre o Brasil, sobre o mundo, sobre a vida – a de dentro e a de fora. Eliane pode escrever sobre a Amazônia profunda, como alguém que cobre a floresta desde os anos 90; ou pode provocar pais e filhos, com uma observação aguda das relações familiares marcadas pelo consumo; ou pode refletir sobre a ditadura da felicidade, que tanta infelicidade nos causa. O que não muda são a profundidade e a seriedade com que ela trata cada tema. O que não é surpresa é seu enorme talento para enxergar muito além do óbvio. Essa combinação rara transformou sua coluna de opinião em um fenômeno de audiência. Este livro reúne seus melhores textos e dá ao leitor uma fotografia do nosso tempo, visto pelo olhar de uma repórter que observa as ruas do mundo disposta a ver. E que escreve para desacomodar o olhar de quem a lê.

Leia Também:  Escrita e reflexões marcam A hora da estrela

7. Porno Chic – Hilda Hilst

porn (2)

Em 1990, Hilda Hilst completava 60 anos, 40 deles dedicados à literatura. Insatisfeita com a publicação de seus livros em pequenas tiragens, o silêncio da crítica e a repercussão restrita, a poeta decidiu escrever ¿adoráveis bandalheiras¿. A experiência deu origem à Trilogia Obsena formada por O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d¿escárnio ¿ textos grotescos, Cartas de um sedutor e ao livro de poemas Bufólicas. Pornô chic reúne os quatro títulos, ilustrados, traz o inédito Fragmento pornográfico rural e fortuna crítica que aborda a polêmica fase erótica de Hilst.  O caderno rosa de Lori Lamby e Bufólicas recuperam as ilustrações de Millôr Fernandes e Jaguar para as primeiras edições. Para ilustrar Contos d¿escárnio e Cartas de um sedutor foram convidadas Laura Teixeira e Veridiana Scarpelli, que apresentaram uma abordagem contemporânea ao pornô de Hilst. Considerados pela autora uma ¿experiência radical e divertida¿, estes livros misturam humor, críticas à sociedade, todo tipo de práticas sexuais e referências a autores célebres pelo erotismo como Henry Miller e Georges Bataille. A leitura de Pornô Chic revela o quanto Hilst pode ser irônica, debochada e divertida sem perder o refinamento.  Se O caderno rosa de Lori Lamby parece obsceno ao apresentar uma menina de oito anos relatando suas experiências sexuais, a autora surpreende os leitores com seu desfecho. Cartas de um sedutor narra o cotidiano de um homem rico, amoral e culto, que diante de sua incompreensão da vida recorre ao sexo em busca de respostas. Contos d¿escárnio é uma reunião de textos satíricos, em que a sexualidade é matéria de reflexões imprevisíveis. Bufólicas é um livro de ¿fábulas safadas¿ concluídas com uma ¿moral da estória¿.

8. A cama na varanda – Regina Navarro Lins

varanda (2)

Um dos maiores fenômenos editoriais dos anos 90, A cama na varanda discute de modo revolucionário a história sexual humana, da valorização da mulher na Antiguidade ao surgimento do patriarcalismo e às novas normas sociais.

9. A camisa do marido – Nélida Piñon

a camisa do marido (2)

Os nove contos de A camisa do marido apresentam Nélida Piñon no auge de seu domínio da forma narrativa e da escrita elegante e alusiva. Nélida descreve de maneira fascinante as sombras e os meandros de relações familiares, enfrentamentos brutais, secretos ou abertos que espreitam em cada lar. O rapaz atraído pela nova mulher do pai, o filho desprezado, o velho poeta desiludido e a jovem simples que nada entende do cavaleiro delirante nos assaltam e seduzem. A camisa do marido é uma pequena pérola de uma de nossas mais brilhantes escritoras.

10. Outro silêncio – Alice Ruiz

outro silencio (2)

“Primavera, verão, outono e inverno: a sazonalidade é um dos elementos centrais na construção do haikai, que tem a natureza como foco; daí a divisão de Outro silêncio nas quatro estações do ano. A forma poética concisa, herdada da cultura japonesa, conquistou grandes autores como Millôr Fernandes e Paulo Leminski, que subverteram regras e inundaram os poemetos de malemolência. Alice Ruiz, experimentadora dessa tradição desde os anos 1980 e peça chave na difusão do haikai pelo Brasil, mostra aqui um trabalho maduro, que retoma a forma em sua essência, como era praticada nos tempos de Bashô. No silêncio e no despimento de si, emerge uma voz original e feminina, lírica e bem-humorada, sutil e sensual”.

11. Boca do inferno – Ana Miranda

boca do inferno (2)

Salvador, final do século XVII. Nessa cidade de desmandos e devassidão desenrola-se a trama de Boca do Inferno, recriação de uma época turbulenta centrada na feroz luta pelo poder que opôs o governador Antonio de Souza Menezes, o temível Braço de Prata, à facção liderada por Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam parte o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos.
Com uma linguagem rica e precisa, e uma narrativa de extraordinária agilidade, Ana Miranda trabalha em filigrana os pontos de contato entre ficção e história, mostrando em todo o seu vigor a vida de homens e mulheres dilacerados entre o prazer e o pecado, o céu e o inferno.

12. Mar de dentro – Lya Luft

mar de dentro (2)

‘Este não é um livro para crianças, mas a respeito de uma.’ Uma criança de imaginação inquieta e fértil, que décadas mais tarde seria reconhecida como uma das maiores escritoras brasileiras. Lya Luft seguiu os conselhos de seu filho, que via nas histórias de infância contadas pela mãe um mundo mágico, e sugeriu que ela escrevesse um livro, apostando que o resultado fosse bem acolhido pelos leitores, já acostumados com o refinamento de seu texto e a força de suas palavras. Assim surgiu ‘Mar de Dentro’, livro delicado, mas intenso.