A Operação Lava Jato já é considerada a maior investigação contra a corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil. Desde 2014, dezenas de réus foram presos e bilhões de reais foram recuperados aos cofres públicos.

A forma complexa e organizada como empresas e funcionários públicos agiam e o envolvimento direto de políticos fizeram com que o assunto fosse o mais discutido em todo o país, escancarando um esquema de corrupção endêmica e antiga nos órgãos públicos. Não demorou muito e as editoras perceberam que precisavam levar aos leitores mais detalhes, esmiuçando a operação que está promovendo uma mudança de paradigmas na justiça brasileira.

O jornalista investigativo Vladimir Neto foi um dos primeiros a participar das reportagens sobre a Operação Lava Jato. Com o desenrolar dos fatos, percebeu que tinha em mãos material que ultrapassava a necessidade jornalística. Por isso, decidiu compilar as informações e histórias e lançou recentemente a obra Lava Jato: o juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Vladimir conta sobre o processo de escrita da obra e os desafios na cobertura da investigação que mudou a história da política brasileira.

Como começou sua participação nas reportagens sobre a Lava Jato?

Desde que começou a Lava Jato acompanho a operação. Há cerca de 10 anos tenho uma carreira no jornalismo investigativo, com a cobertura de grandes casos de corrupção e sempre em busca desse tipo de informação, a qual chamamos de “informação negada”. Atuei em outras grandes investigações, como o Mensalão, a Operação Monte Carlo e a Operação Caixa de Pandora. Foi natural que eu passasse a cobrir a Lava Jato logo no início.

Por que você decidiu que deveria transformar essas informações em livro?

Decidi escrever o livro quando percebi que era uma história que valia a pena ser contada, porque era uma história de investigação diferente das outras. A Lava Jato teve sucesso onde outras fracassaram. Estávamos acostumados a ver no Brasil operações com finais melancólicos, mas essa não, ela foi mais longe.

Tive esse primeiro sinal em agosto de 2014, quando o Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, e o doleiro Alberto Youssef decidiram fazer a delação premiada. Isso já era um sinal de que seria uma operação diferente. Depois, em novembro do mesmo ano, isso ficou mais claro com a prisão dos empreiteiros, na sétima fase da Lava Jato. Depois veio o convite da Editora Sextante, e aí pronto, juntou a fome com a vontade de comer.

O livro detalha bastante o início da operação. Por que esse começo foi tão importante?

Quis mostrar desde o começo porque foi um período definidor, em vários aspectos, do sucesso da operação. A Lava Jato teve sucesso devido a uma soma de fatores, os quais estão no começo do livro. Um exemplo são as mudanças na legislação que aconteceram pouco antes de começar a Lava Jato, em 2013, que facilitaram o combate à organização criminosa e permitiram o uso mais intenso da delação premiada, instrumento jurídico relativamente novo no Brasil. Outro fato é por ser no Paraná, pelo perfil do juiz Sérgio Moro, pelo perfil dos policiais federais que atuam no estado, pelos procuradores e pela experiência que todos tinham no combate a este tipo de crime: lavagem de dinheiro. Esse encadeamento de fatos levou muitas vezes a golpes de sorte. Claro que você precisa estar preparado para quando a sorte aparece, e eles estavam. O Paulo Roberto Costa foi preso por causa da história da compra do carro e a omissão de provas pelas filhas. Isso é considerado pelos investigadores um golpe de sorte, uma oportunidade que permitiu a investigação avançar. Todos esses fatores e as delações premiadas abriram o caminho, e tudo isso aconteceu no começo.

Que tipo de informação você conseguiu colocar no livro que acabou não utilizando nas suas reportagens? O livro traz algo inédito?

Há muitas coisas inéditas, muitos detalhes e entrevistas exclusivas com os investigados. Procurei todos os envolvidos, mas não detalho com quem falei especificamente. Foi a maneira de fazer com que as pessoas contassem tudo o que sabiam, as melhores histórias, então protegi o direito de sigilo da fonte. Mas as pessoas que concordaram [em divulgar o nome] eu falo, como o Alberto Youssef, o Paulo Roberto Costa, o Delcídio do Amaral, que deram entrevistas exclusivas para esse livro. Alberto Youssef disse que só tem medo de um homem nesta vida, e esse homem é o Sergio Moro. Isso veio de uma entrevista exclusiva, dele recontar o diálogo, como decidiu fazer a delação. O que fiz foi tentar reconstruir a história, agregando detalhes inéditos à narrativa, com base em entrevistas exclusivas.

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E o juiz Sergio Moro, você conversou com ele para o livro?

Sobre quem entrevistei, é o que expliquei, só revelo os que autorizaram explicitamente.

O esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato envolveu dezenas de personagens. Existe algum pelo qual você tenha tido interesse maior?

Gostei da reconstituição da história do Youssef, que é um personagem muito intrigante, e do Delcídio, pela sinceridade, pela fluidez com que falou e contou todos os detalhes. Esses dois personagens realmente chamaram muita minha atenção.

O livro traz também diversos fatos e histórias impactantes. Pode citar alguma em especial?

O que mais curti fazer, mais me surpreendeu, foram as histórias do Paulo Roberto Costa sobre como tudo aconteceu, como funcionava o esquema. Fiquei muito feliz com o capítulo sete, no qual fiz a reconstituição da prisão do Marcelo Odebrecht, desde a preparação, a chegada e os primeiros momentos. Tem também muitos lances no livro, como a história de que o Youssef quase morreu, a prisão dos empreiteiros e a rotina deles na cadeia, o que os políticos presos falaram, como o Pedro Corrêa e o André Vargas. Todas essas histórias me chamaram atenção, é difícil escolher uma.

Quais cuidados você tomou ou com o que você se preocupou para manter a imparcialidade jornalística no livro?

Ouvir todo mundo, todos os advogados, todos os investigados, todos os investigadores, para que eu pudesse ter uma visão geral. Meu objetivo desde o começo era fazer uma reconstituição histórica, então precisava colocar o leitor dentro da cena. O tempo todo fiz o livro pensando nele como se fosse um filme, tentando colocar não só a circunstância, mas a emoção das pessoas. E, para fazer isso, é preciso ouvir todo mundo, ouvir como o investigador viu, como o investigado viu, como o advogado percebeu a cena. Somando tudo isso você consegue um relato imparcial, que preza não só por uma visão específica, mas pela de todos que estavam ali. Checar todos os fatos também foi algo muito importante para o resultado do livro.

Você diria que esse cuidado foi seu maior desafio no livro?

Sim, exatamente, ouvir todo mundo e checar muito bem todos os fatos citados no livro foi o que deu mais trabalho.

Como a operação ainda está em andamento, você pensa em escrever uma continuação?

Sim, continuo acompanhando a história. A Lava Jato é imprevisível, tudo pode acontecer.

Como você vê a importância da operação Lava Jato para o país?

Está sendo muito importante, pode ser um divisor de águas. Repare que digo “pode”, porque esse jogo ainda não está decidido. Mas uma coisa já está certa: a Lava Jato nos deu a oportunidade de pensar em um país melhor, em um país em que a luta contra a corrupção seja mais bem-sucedida, onde possamos buscar uma sociedade com menos crimes como esse – que é um crime que torna a sociedade mais injusta, piora o serviço público e torna o país mais desigual. Essa é importância da Lava Jato, é fazer o brasileiro pensar e perceber que dá para ser diferente, que dá para sair desse velho esquema da corrupção que vivemos durante tantos anos e, de repente, pensar em um país melhor. Não é algo que está decidido, essa escolha está em nossas mãos. O que o Brasil vai fazer dela, ele ainda não decidiu.