Em 1997, Gustavo Kuerten transformou o país do futebol no país do tênis. Conquistando o título de campeão do Grand Slam de Roland Garros – dois anos após ter estreado no tênis profissional – o atleta atraiu a atenção do público para um esporte pouco popular no Brasil.

Junto com Roland Garros – torneio mais importante do mundo em quadra de saibro do qual foi três vezes campeão –, Guga conquistou 28 títulos (sozinho e em dupla) em 13 países e foi o nº 1 do mundo do tênis por 43 semanas. Em 2008, aposentou- se das quadras profissionais e alguns anos depois teve sua carreira reconhecida por três grandes homenagens: foi incluído no Hall da Fama Internacional do Tênis, nos Estados Unidos; recebeu a Cruz do Mérito Desportivo, maior homenagem brasileira a um atleta; e recebeu o prêmio Philippe Chatrier, da Federação Internacional de Tênis.

Mesmo fora das quadras, o catarinense Guga é conhecido por seu trabalho em prol do tênis, por meio da Escolinha Guga – escola de tênis para crianças – e do Instituto Guga Kuerten – organização filantrópica com fins educativos, esportivos e sociais. Entre suas aspirações, está promover a inclusão social por meio do esporte e formar novos ídolos do tênis nacional. Agora, o tenista está lançando sua biografia Guga, um brasileiro, em que conta sobre sua carreira e seus projetos fora da quadra, mas também sobre sua vida pessoal, seu relacionamento com a família, sobre a morte do pai (quando ele ainda era criança), suas dificuldades e superações pessoais e profissionais. Confira a entrevista em que Guga fala mais sobre o livro e sua história.

LER&CIA – Como foi, para você, decidir contar sua história e escrever sua biografia?

Guga – O resultado superou qualquer expectativa que eu tinha. Traz uma alegria particular ver as pessoas comentando sobre isso. Hoje, é mais fácil aceitar que esta história tem um brilhantismo, que é uma trajetória especial. Há uns cinco, seis anos começamos a pensar “vamos fazer um livro”, mas eu fiquei em dúvida sobre o que escrever. Foi difícil, para mim, amadurecer essa ideia.

LER&CIA – Fazendo a retrospectiva para a biografia, o que você gostaria de ter feito diferente na sua carreira? Você acha que faltou realizar algo?

Guga – Ah, milhares de coisas! Principalmente aquelas bolas que eram pra vir pra cá e iam pra lá e mudavam todos os resultados (risos). Mas acho que esse é o fascínio da vida, né? É também estar suscetível ao erro, porque assim há também a grandiosidade de uma conquista brilhante. Acho que são esses extremos que encontro em minha vida que acabaram trazendo o principal sabor.

LER&CIA – Como foi o processo de escrita com o jornalista Luís Colombini?

Guga – A decisão por escrever a biografia dependia de um fator, de uma parceria difícil de visualizar: quem vai ser o cara? Nesse processo, eu encontrei o Luís, que me surpreendeu de uma forma magnífica. Alguém que virou da família. Foi preciso confiança integral.

LER&CIA – O que o leitor vai encontrar na obra?

Guga – O livro começa desde a época em que eu nem me conhecia, com meu pai encontrando a minha mãe pela primeira vez. Incrível e também naturalmente foi através do esporte. Minha mãe conheceu meu pai numa quadra de basquete. Então, acredito que este também é um dos fatores que fizeram com que eu me tornasse um tenista. Eu vejo que o Luís [Colombini], conseguiu ser muito feliz ao escrever comigo o livro e trazer isso à tona. O livro foi construído com uma certa facilidade a partir das emoções porque isso dá margem para falar de qualquer assunto. Tudo de positivo que aconteceu na minha vida, de algumas coisas delicadas também, de acontecimentos mais difíceis e tristes, mas que foram significativos e coisas que são marcantes. Acho que o livro tem muito disso tudo. Fala do que realmente represento e do que eu valorizo.

LER&CIA – Como você avalia o resultado final?

Guga – Olhando de uma ponta a outra é difícil acreditar que tudo isso aconteceu. Com o livro, a gente conseguiu contar os assuntos, as etapas, os momentos, as decepções, as minhas conquistas que foram levando a construir algo inalcançável, algo que no início eu não imaginava ser possível. Este é um projeto tão grandioso como foram as minhas vitórias dentro da quadra, porque eu não conseguia imaginar como engradecer tudo o que aconteceu comigo. E acho que o resultado foi esse: trouxe à tona as histórias e, principalmente, os valores, a subjetividade, as sensações que eu fui buscando para montar uma alma vencedora e um perfil competitivo.

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LER&CIA – Quais são suas expectativas com o livro?

Guga – Que ele seja pontual para que cada pessoa ache um caminho, que sirva para ganhar jovens, ajude para a superação. Eu sabia que ia contar a minha história, contar o que eu vivi, mas ao longo do caminho ficou muito claro que o que eu tentei passar, definitivamente, foram as minhas sensações, a minha emoção, o que transcorria na minha cabeça durante todo este tempo. Acho que isso permanece constante no livro. Independentemente se é durante o jogo ou quando criança, há uma interiorização. Para que as pessoas pudessem se aproximar de verdade.

LER&CIA – Você se tornou um ídolo do esporte, no país do futebol. De tudo o que viveu, quais foram os momentos mais inesperados e surpreendentes?

Guga – A história em si já é uma história de “cabeça pra baixo”. A bola já era completamente diferente do habitual, do que o país inteiro está acostumado. Acho que vai além de um momento que surpreenda. Quando eu começo a analisar a minha história inteira e, principalmente, depois desta imersão com o livro, eu vejo umas 50 ocasiões até os 18 anos de idade que quase são fundamentais. A paixão do meu pai pelo tênis – que já era meio absurdo querer construir uma quadra de tênis em Florianópolis naquela época –, chamar o Larri [treinador] já tão precocemente, nos oito primeiros anos da minha vida. Enfim, há umas dez indicações e situações que quase que me empurraram para o universo do tênis, sem as quais nada teria acontecido. Acho que esse é o fator mais extraordinário: é uma história completamente incoerente para qualquer brasileiro. Por isso que eu fiz questão de provocar também, no livro, que eu não deixo de ser um cidadão típico brasileiro, comum como qualquer outro. Apesar de ser algo completamente diferente, é possível para qualquer brasileiro conseguir alcançar.

LER&CIA – Por isso, entre tantas alcunhas e conquistas, o nome do livro traz simplesmente Guga, um brasileiro?

Guga – Quando o livro estava entre 80, 90% pronto, o nome surgiu na minha cabeça. Gosto de viver como um cara normal, um cara comum. E acho que o título demonstra de forma meio provocativa e conflitante que as possibilidades estão à disposição. Obviamente, eu tive as minhas oportunidades, com pessoas ao lado. Mas talvez oportunidades semelhantes passem na vida de muita gente e, se não houver várias ou não conseguir enxergar aquelas coisas que ninguém vê, elas passem despercebidas. É este estranhamento mesmo que eu queria provocar, pois eu não vejo nada de magnífico ou especial do personagem ou uma magia. Os fatos são magníficos, então, dá para construir isso. A gente não nasce com toda essa capacidade, dons, habilidades. Eu acho que está à mercê das pessoas, cada um com o seu horizonte e seus desejos, mas dá pra fazer. Tem jeito! Se alguém quiser de verdade uma conquista ou realizar algo, está aí, é possível. Se alguém me contasse, eu não acreditava, mas aconteceu.

LER&CIA – Mais de cinco anos após a sua aposentadoria, você ainda é lembrado e querido pelo público brasileiro. Como você avalia todo este carinho?

Guga – É espantoso. As demonstrações são quase que cotidianas. Talvez isso aconteça por causa da forma como eu consegui o contato com as pessoas – dessa maneira mais emocional – que cativa e prende, numa ligação mais forte. Outro fator também é a carência que o Brasil tem de ídolos e uma carência emocional do nosso país de forma geral. Eu acho que é muito especial, é impressionante. Eu fico muito grato, pois recebo um carinho das pessoas que é inexplicável. É uma coisa que aconteceu, que acontece e que tem muito valor para mim. Parece que estou crescendo mesmo quando não estou mais nas quadras. Repito, é espantoso!

LER&CIA – Você acredita que o ídolo do esporte tem um papel, uma responsabilidade diante da sociedade? Como você passou a ver isso após a fama?

Guga – O tênis traz muito essa inspiração de mobilizar, de envolver. Promovemos a Semana Guga Kuerten, com mil crianças diretamente envolvidas, além da Escolinha Guga – já há quase 20 unidades em todo o Brasil. Eu quero ainda tentar devolver o máximo, principalmente para o tênis brasileiro, de tudo que aconteceu comigo. Tentar, de alguma maneira, formar um novo ídolo ou vários, quem sabe, para o futuro. Acho também que com tudo o que é relativo a esporte e educação eu tenho a tendência a me envolver.

Colaboração: Grayce Rodrigues, Apoio Comunicação